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Domingo Eu Como Demais...

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Quando uma pessoa decide ou é orientada a fazer ou iniciar uma dieta, alguns dias antes ela passa por um processo de desinibição alimentar, comendo indiscriminadamente e em excesso, alimentos que serão restringidos durante o período de dieta.

JÁ QUE NA SEGUNDA-FEIRA COMEÇA A DIETA,DOMINGO EU COMO DEMAIS...
A desinibição alimentar ante a idéia de fazer dieta - Uma contribuição da Psicanálise – *

* Artigo publicado nos Cadernos de Psicanálise – CPRJ, número16, 2003,ano 25

No senso comum o que observamos é: “Como a dieta só vai começar na Segunda-feira, então no Domingo eu como demais....”.

Sabemos que as dietas para emagrecer são entendidas pelo corpo como escassez de alimentos: É como se estivéssemos passando por uma guerra e não houvesse mais comida suficiente no mundo. O organismo começa a economizar e absorve tudo que é ingerido. Ao mesmo tempo, manda sinais de que precisa de mais comida.

O que observamos é que ante a simples idéia de restrição de alimentos,a pessoa que vai entrar em dieta, age como se estivesse com escassez de alimentos, apesar de estar entrando em dieta de restrição alimentar justamente por causa do excesso de peso!!!!

O fenômeno da desinibição alimentar ante a idéia de fazer ou iniciar uma dieta vem sendo objeto de estudo de diversos pesquisadores, que vem estudando este tema. Dentre as pesquisas com abordagem comportamental realizadas chamou-me a atenção em especial a pesquisa realizada por Dax Urbszat, C.Peter Herman e Janet Polivy no Canadá, publicada em maio de 2002.

Ao lê-la, surpreendi-me pelo fato de que apenas pela sugestão dos pesquisadores, as estudantes universitárias que participaram do estudo responderam comendo a mais do que as outras que não receberam a mesma sugestão. O que ficou constatado em bases comportamentais foi que as pessoas que receberam a sugestão de iniciar uma dieta, comeram mais durante o experimento do que as outras. O assunto chama a atenção: diante de um fato aparentemente simples observamos uma desinibição, um livrar-se do embaraço,do impedimento.

O que será que leva às pessoas a livrar-se do impedimento de ingerir grandes quantidades de alimentos diante da idéia de estarem, em breve, impedidas a comer o que tem vontade? Qual é o sentido de comer em excesso quando a idéia de restringir a alimentação é decidida?

Em termos comportamentais estamos diante do fato de pessoas que comem mais diante da idéia de comer menos.
A teoria psicanalítica pode trazer contribuições importantes para este fato observável em diversas pesquisas de comportamento. Como, para que os indivíduos exageram no comer diante da idéia de restrição? Mecanismo de compensação da “falta” de alimento que está por vir? Ritual de despedida?

Para a psicanálise a pergunta é: Para que o sujeito transgride a proibição instituída sobre o objeto alimentar? Quais são os caminhos percorridos pelo psiquismo que podem resultar nesta desinibição alimentar?

Tomando como base a pesquisa acima citada, passei então a fazer um exercício mental, onde imaginei-me ouvindo um paciente, que tal como o grupo experimental, estivesse comentando comigo: “Imagine você, que fomos fazer parte de uma pesquisa sobre o sabor de um novo biscoito. Ao nos encontrarmos com os pesquisadores, nos foi sugerido que ao fim da pesquisa nós entraríamos numa dieta alimentar. Ao fim da pesquisa, nos foi dito que não seria necessário entrar em dieta e que o grupo que recebeu a sugestão de iniciar uma dieta após o experimento comeu significativamente uma maior quantidade de biscoitos do que o grupo que não recebeu essa sugestão”.
É a partir dessa imagem clínica que farei comentários de um ponto de vista da psicanálise. O que leva um sujeito (ou um grupo de pessoas) a receber uma sugestão de uma idéia e imediatamente transgredi-la? Quais os caminhos percorridos no psiquismo que fazem com que isso ocorra?

Nos Dez Mandamentos está escrito “Não Roubarás”. Podemos dizer que se supõe que os efeitos da ação de roubar promoverão um incômodo e por isso deve ser evitado. No entanto os homens nunca deixaram de roubar uns aos outros. Será que se trata de uma tendência à transgressão estabelecida desde os primeiro tempos da Humanidade?

A experiência da transgressão remete para o campo do Inconsciente e,ao invés de se atenuar, ganha mais força.

A pergunta que brota traz uma evidência consigo: Porque existe a proibição de roubar? Apenas porque, há o desejo de roubar. Da mesma maneira perguntamos: Porque ao proibir o comer em excesso as pessoas comem em excesso? Apenas porque existe este desejo.

Antes do advento da psicanálise o termo “Transgressão” referia-se apenas à área jurídica. Em seu artigo intitulado “A Psicanálise e a determinação dos Fatos Jurídicos”, Freud (1906) nos fala que o ser humano tem a essência transgressora e que não adianta querer educá-lo ou governá-lo. O inconsciente é por natureza, transgressor. O inconsciente tem uma índole não conformista. No texto, Freud diz: “Muitas vezes uma criança acusada de uma transgressão nega veementemente sua culpa, embora chore como um criminoso desmascarado.

Talvez pensem que a criança mentiu ao afirmar sua inocência, mas isto nem sempre é verdade. Pode ser que, embora não tenha cometido uma falta de que a acusam, tenha cometido uma outra que permanece ignorada e que não lhe foi imputada. Assim, fala a verdade ao negar ser culpada da primeira transgressão,ao mesmo tempo que revela seu sentimento de culpa proveniente da outra falta.

Nesse particular, como em muitos outros pontos, o adulto neurótico comporta-se exatamente como uma criança.” (Freud, 1906, p.114, Edição Standard Brasileira,1976)

SINTOMA

Em nosso caso, podemos aqui fazer uma suposição de que quando o “paciente” (grupo experimental) manifesta o sintoma de comer mais biscoitos diante da idéia de iniciar uma dieta restritiva, este sintoma está substituindo processos mentais investidos emocionalmente, anseios e desejos, que, através do recalque, tiveram sua descarga impedida de chegar à consciência.

Quando nos fala das pulsões e destinos das pulsões, em artigo escrito em 1915 (Pulsões e Destinos das Pulsões, 1915), Freud faz uma descrição da atividade psíquica, desde o ponto de vista pulsional. Fala nas 4 características que as definem na atividade psíquica: pressão, inalidade, fonte e objeto.

O objeto de uma pulsão é o que há de mais variável, podendo mudar e se transformar de momento para momento.

Pode não ser algo necessariamente estranho ao sujeito, podendo ser também uma parte de seu próprio corpo. O objeto pode ser modificado quantas vezes for necessário no decorrer dos destinos da pulsão durante a vida do sujeito. Muitas vezes um mesmo objeto pode vir a servir para a satisfação de diversas pulsões ao mesmo tempo. Ou também pode haver ligação de fixação com um determinado objeto, que põe fim a sua mobilidade.

Esse deslocamento da pulsão em busca de um objeto que mesmo variável, funcione como um representante substituto de uma idéia original,desempenha papel muito importante na atividade psíquica do Ser Humano. É a nossa delícia e o nosso inferno como Seres Humanos. Em nosso “paciente” (grupo experimental) podemos agora perguntar: qual será a representação afetiva destes simples biscoitos, que os transformam em objeto pulsional para a satisfação de um desejo, mediante a idéia de que em breve haverá restrição alimentar? A quais processos estão sendo representados estes estímulos na vida psíquica?

UMA CENA QUE JÁ ESTAVA LÁ

A orientação, ordem ou comando interno ou vindo de fora mobiliza uma cena transgressora, que já existe no sujeito. Uma cena que já estava lá.

Em Totem e Tabu (Freud, 1913) encontramos a descrição de uma refeição totêmica, onde o clã celebra através de uma cerimônia a matança cruel de seu animal totêmico, devorando-o cru. Os membros do clã se encontram vestidos como o totem e o imitam em sons e movimentos, procurando acentuar sua identidade com ele. Nesta cerimônia, cada um está consciente de que está executando um ato proibido. Todos tem que estar presentes na matança e na refeição.

Quando termina, o animal morto é lamentado e pranteado. O luto é obrigatório, fruto de um medo de uma desforra.

O luto tem por objetivo renegar a responsabilidade pela matança. Após o luto começam demonstrações de alegrias e regojizos. Começa um momento de liberação onde há permissão para qualquer tipo de gratificação.
“Encontramos aqui um fácil acesso à compreensão da natureza dos festivais em geral. Um festival é um excesso permitido, ou melhor, brigatório à ruptura solene de uma proibição. Não é que os homens cometam os excessos porque se sentem felizes em conseqüência de alguma injunção que receberam.

O caso é que o excesso faz parte da essência do festival; o sentimento festivo é produzido pela liberdade de fazer o que via de regra é proibido.” (Freud, 1913,p.168, Edição Standard Brasileira, 1974)

Mas, pergunta-se, porque o prelúdio deste festival onde o sentimento festivo é produzido pela liberdade de fazer o que é proibido, é o luto pela morte do animal? Porque a liberação total é precedida de tristeza e de luto? É que, ao consumirem a refeição totêmica os integrantes do clã adquirem santidade:reforçam a sua identificação com o objeto perdido (totem) e a identificação entre si.

A psicanálise diz que o animal totêmico é um substituto do pai. Daí a contradição. No fundo, a grande contradição humana diante da lei: a matança do animal é proibida, embora gere uma ocasião festiva; o animal é morto, no entanto é chorado. Essa atitude emocional ambivalente em relação ao totem reforça a idéia de que o totem é um substituto do pai, já que esta ambivalência persiste no ser humano diante da lei, do pai.

Esta é a cena que já estava lá. A transgressão que leva à morte do pai é a mesma que gera uma nova ordem, uma nova lei. Mas, para que esta nova lei seja estabelecida há que se chorar o morto e então regozijar - se através de um festival onde qualquer tipo de gratificação é permitido, onde qualquer excesso é possível, onde se rompe com as proibições.

O “paciente” (grupo experimental) comportou-se como se fosse um simulacro neurótico da transgressão. Diante da idéia de restrição alimentar num futuro imediato, um mundo fantasmático é acionado. A orientação, ordem ou comando interno ou vindo de fora que estabelece uma proibição, mobiliza esta cena transgressora, que já existe no sujeito.

Quando esta cena retorna e a transgressão acontece, o “paciente” retorna a uma situação ocorrida antes desta nova ordem. Ele regride a uma fase anterior e tudo que já havia acontecido antes do estabelecimento desta nova ordem é resignificado.

O PRANTEAR DO TOTEM PERDIDO

O prantear do totem perdido, tal qual a idéia da restrição alimentar no relato do paciente, nos conduz a uma análise da melancolia, tema sobre o qual Freud escreveu o texto “Luto e Melancolia” em 1917.

Neste trabalho Freud discorre sobre a identificação como um momento anterior a escolha de um objeto e de como o ego deseja incorporar a si mesmo este objeto. E, de acordo com a fase oral ou canibalesca em que se encontra, o ego deseja fazer esta incorporação devorando o objeto. Mais adiante, é descrito o processo pelo qual, na melancolia, o investimento de objeto é substituído por uma identificação. Freud descreve os traços principais da melancolia: desânimo penoso, cessação de interesse pelas atividades no mundo, inibição na realização de atividades e diminuição da auto – estima. Estas características estão presentes no processo de luto normal pela perda de alguém ou de alguma coisa na vida de cada um, exceto a diminuição da auto – estima, que é uma característica exclusiva da melancolia.

O luto é elaborado a partir do momento em que o teste de realidade revela ao sujeito que o objeto amado não mais existe, ou não ocupa mais o mesmo investimento que ocupava anteriormente, passando a exigir que toda a libido seja retirada de suas ligações com aquele objeto. É claro, que as pessoas raramente abandonam facilmente uma posição libidinal anterior mesmo quando uma nova posição começa a aparecer. Mas, de maneira geral, prevalece a prova da realidade de que aquele objeto “desapareceu”. E, pelo funcionamento pulsional, lentamente, o objeto vai sendo substituído por outro ou outros objetos.

Mas, porque o sofrimento inicial quando acontece uma perda? Porque,a princípio, ocorre uma sensação de vazio? Aí, passamos a pensar na melancolia, que ocorre também dentro dos primeiros tempos de luto, e que pode se transformar em patologia ou não, de acordo com a elaboração possível em relação à perda do objeto.
Para que ocorra a melancolia existem três pré – condições: perda do objeto, ambivalência e regressão da libido para o ego.

A perda do objeto pode estar relacionada a um ideal, a uma crença, a um objeto de amor, ou a uma parte de um objeto. O sujeito não sabe claramente o que está perdendo. No luto, é o mundo que se torna vazio e pobre. Na melancolia, é o próprio ego. Como vimos em Totem e Tabu, a perda do objeto Totem, faz com que os homens do clã chorem por ele.
Com nosso paciente ocorre fato semelhante. A idéia da restrição alimentar, a idéia da “perda” do alimento, o conduz a melancolia. A idéia da restrição alimentar o faz sentir-se “vazio”.

A ambivalência também aparece nesta circunstância. Para Freud, a ambivalência se caracteriza pela coexistência do amor e pelo desejo de destruição do mesmo objeto.

Tal qual o animal totêmico, representante do pai, era tão amado e tão odiado, a relação com a comida e suas representações, também parece apresentar estas características. Ao mesmo tempo tão amada, ao mesmo tempo tão odiada. Tantas coisas tão saborosas e tão cheias de calorias, que engordam. O sujeito ao mesmo tempo quer comer e não comer.

A terceira condição para a melancolia se traduz na regressão da libido para o ego. Quer dizer, ao invés do investimento libidinal se deslocar para outro objeto, ele se desloca para o próprio ego. Aí fica estabelecida a identificação com o objeto perdido. Freud acrescenta que identificação narcísica com o objeto torna-se um substituto para o investimento objetal e que, em conseqüência, apesar do conflito, não é necessário renunciar ao objeto perdido. A forma como o Ego escolhe um objeto inicialmente é através da identificação. É a primeira forma, expressa de maneira ambivalente. O ego deseja incorporar a si este objeto, e como está na fase oral ou canibalista do desenvolvimento, deseja fazer isso devorando o objeto.

Também aparece aqui o sentimento de culpa. Neste estado melancólico, não é raro aparecerem auto – acusações, autodepreciação, uma tendência para a autopunição, que nos casos patológicos, pode levar ao suicídio.

É como se a instância crítica do sujeito (mais tarde, denominada de “superego”) estivesse separada do ego por clivagem. Neste caso, esta instância crítica pode demonstrar autonomia em outras circunstâncias. Existe aqui uma clivagem do ego, por um processo de interiorização, entre o acusador e acusado. As auto – recriminações de um sujeito em estado de melancolia são recriminações contra um objeto de amor, que são retornadas deste mesmo objeto para o ego do sujeito.

Nosso “paciente”, assim como os homens do clã, deseja incorporar as características representadas fantasmaticamente por esses alimentos a si mesmo, através da ingestão excessiva dos mesmos.

Quando falamos de identificação narcísica e de ambivalência, nos remetemos a mais alguns conceitos psicanalíticos relacionados ao desenvolvimento libidinal. Os conceitos de identificação pela via da incorporação e da ambivalência nos remete à fase oral ou canibalista e à fase anal do desenvolvimento libidinal.

O EXCESSO PERMITIDO: O SENTIMENTO FESTIVO PRODUZIDO PELA LIBERDADE DE FAZER O QUE VIA DE REGRA É PROIBIDO

Após o pranto pela morte do animal, representado pelo totem começam as demonstrações de alegrias e regozijos. Começa um momento de liberação onde há permissão para qualquer tipo de gratificação. É o momento do comer o animal totêmico. Comer o que é proibido que se coma. Ingerir para incorporar as características daquele que foi morto. Identificar-se com o animal totêmico destruído. Aqui podemos observar que o termo “Identificação” está estreitamente associado a “Incorporação”.

Nos “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, na edição de 1915, Freud, descreve a fase oral ou canibalesca como primeira fase da organização sexual do ser humano. A fonte das pulsões nesta fase do desenvolvimento humano é a zona oral. O objeto está estreitamente relacionado com o da alimentação. E o seu objetivo, sua finalidade, é a incorporação.

Na incorporação misturam-se diversos objetivos pulsionais. De princípio, mesclam-se as atividades alimentar e sexual, sobrepondo-se as pulsões de auto conservação com a pulsão sexual.

Freud inicialmente entende que as pulsões sexuais se opõe às pulsões do ego ou de autoconservação, que são entendidas como as grandes necessidades ou as grandes funções indispensáveis à conservação do ser humano, cujo modelo é a fome e a função é a alimentação.

Em 1920, quando fala em pulsões de vida se contrapondo à pulsão de morte, Freud diz que “Na fase de organização oral da libido, o domínio amoroso sobre o objeto coincide ainda com o aniquilamento deste.” (”Além do princípio do Prazer”, 1920).

A fase oral – sádica é diferenciada da primeira etapa da fase oral,precoce, de sucção, “pré – ambivalente”, pelo aparecimento dos dentes. Nessa segunda etapa da fase oral a atividade de morder e de devorar implica na destruição do objeto e aí aparece a ambivalência pulsional, já que a libido e a agressividade se dirigem para um mesmo objeto. Daí a fase oral estar tão relacionada à incorporação, apesar da incorporação não se limitar nem à atividade oral propriamente dita, nem à fase oral, exclusivamente. Na incorporação estão presentes a obtenção de um prazer fazendo penetrar um objeto em si, a destruição desse objeto e a assimilação das qualidades deste objeto, conservando-o dentro de si. E é neste último aspecto que observamos que a incorporação é a matriz da introjeção e da identificação.

A introjeção foi um termo adotado por Freud onde é considerada a gênese da oposição sujeito (ego) X objeto (mundo exterior) (Pulsões e Destinos das Pulsões, 1915). A introjeção também é correlativa da oposição prazer – desprazer quando “o ego – prazer originário quer ... introjetar em si tudo o que é bom e rejeitar tudo que é mau “ (A (De) negação, 1925).

A introjeção foi evidenciada pela investigação psicanalítica quando observou-se que o sujeito faz passar de modo fantasmático objetos e qualidades destes objetos, de “fora” para “dentro”.

A introjeção tem forte ligação com a incorporação oral, apesar de não se referir necessariamente ao limite corporal. O processo de introjetar refere-se à linguagem das pulsões orais: “quero comer aquilo ou quero cuspí-lo; e, traduzido numa expressão mais geral: quero introduzir isto em mim e excluir aquilo em mim” (A (De) negação, 1925).

A distinção entre a incorporação e a introjeção na psicanálise é importante de ser mantida, já que o limite do corpo é o protótipo de toda e qualquer separação entre o interior e o exterior. A incorporação refere-se claramente ao corpo. A introjeção é um pouco mais ampla pois refere-se ao interior do psiquismo, de uma instância, podendo traduzir-se em fantasias que incidem sobre os objetos, sejam eles parciais ou totais.

Quando Freud reconhece que a introjeção é um processo mais geral,que não é apenas ligado à melancolia, há uma transformação na teoria psicanalítica em relação à identificação. O termo “identificação” pertence ao vocabulário comum no sentido de “tornar idêntico, igual”. Na teoria psicanalítica este conceito foi assumindo progressivamente um lugar de destaque.

A princípio Freud postula que a identificação não é simples imitação, mas é uma apropriação. Em seguida, como vimos acima, Freud mostra o papel da identificação nos estados melancólicos, quando o sujeito se identifica por regressão à relação de objeto característica da fase oral, com o objeto perdido,através da incorporação.

Quando estuda o narcisismo (Para Introduzir o Narcisismo, 1914),Freud traz uma distinção entre a escolha narcísica do objeto, que seria escolhido de acordo com o modelo da própria pessoa, e a identificação, quando o sujeito,ou qualquer das instâncias de seu psiquismo, é constituído segundo o modelo de seus objetos anteriores: pais, pessoas de seu meio, etc.

Em relação ao Édipo, a identificação é descrita como principal efeito: os investimentos nos pais são abandonados e substituídos por identificações. O sujeito deixa de querer “TER” e passa a desejar “SER COMO” seu pai, ou sua mãe, ou características parciais de um deles ou de ambos.

E, a partir de 1920, Freud acrescenta que as instâncias do psiquismo são resquícios, em diversas modalidades, das relações de objeto e não mais sistemas em que se inscrevem imagens e “conteúdos” psíquicos.

No trabalho, “Psicologia Coletiva e Análise Ego” (Psicologia Coletiva e Análise do Ego, 1921), no capítulo IV, Freud fala que a identificação é reconhecida pela psicanálise como a mais antiga expressão de um laço emocional com outra pessoa. Diz ainda que há três fontes de identificação.

Primeiro, a identificação é a forma original de laços emocionais com um objeto; segundo, torna-se de forma regressiva, um substituto para um traço libidinal de objeto, tal como uma introjeção do objeto pelo ego. Por fim, a identificação pode surgir com qualquer percepção nova de uma qualidade comum compartilhada com alguma outra pessoa, que não seja da pulsão sexual.

O “paciente” (grupo experimental) nos leva a levantar a hipótese de que o comer em excesso ante a idéia de iniciar uma dieta o conduz ao sentimento de festividade pois os simples biscoitos da pesquisa apresentada podem estar representando qualidades que serão imaginariamente incorporadas. Podemos supor que no ato de comer a mais, o “paciente” revive a incorporação e as identificações infantis pré – edípicas. É uma regressão à fase oral do desenvolvimento libidinal. É como se dissesse: “Devorando-o, comendo-o em excesso, fico com ele, adquiro suas qualidades, fico forte, poderoso”.

Além disso, podemos supor que o comer a mais, assim como o devorar do animal totêmico é um passo importante para a elaboração da perda e para o estabelecimento da nova ordem. Da mesma maneira que o sujeito elabora o complexo de Édipo, no sentido de abrir mão de TER seu pai ou sua mãe, para SER COMO eles, através das identificações.

O sentimento festivo vivenciado através do excesso permitido, é produzido pela liberdade de fazer o que é proibido. Fazendo o que é proibido, transgredindo-se a ordem anterior, experimenta-se de forma regressiva, mas com novo significado, fases anteriores a ordem. Ao mesmo tempo que fica estabelecida uma nova ordem.

PERDA DE AUTONOMIA

Ao receber a sugestão de iniciar uma dieta de restrição de alimentos,nosso “paciente” (grupo experimental) imediatamente respondeu comendo biscoitos a mais.

Isso nos leva a supor que houve uma perda da autonomia para dizer não ao excesso. A perda de autonomia também se revela em relação às pessoas obesas em seu cotidiano, independente do fato de estarem diante da idéia de iniciar uma dieta de restrição. Nesse momento, porém,continuaremos na escuta de nosso “paciente” no momento em que recebeu o comando de iniciar uma dieta.

Esta perda de autonomia nos remete teoricamente na psicanálise à questão da ambivalência e sua predominância na fase libidinal anal.Segundo a psicanálise, a ambivalência inicia-se imediatamente na entrada da fase oral sádica, quando o objeto de desejo é devorado pelo sujeito, o
que implica uma hostilidade para com o objeto.

Mas, a ambivalência vai predominar na fase anal, que é a segunda fase da evolução libidinal, aparecendo como uma das organizações pré - genitais,situada entre as organizações oral e fálica. Caracteriza-se pela organização da libido sob o primado da zona erógena anal. Nesta fase, onde a princípio prevalece a expulsão, mais tarde, numa segunda etapa, vai predominar a retenção. Logo, no primeiro período desta fase, o erotismo anal está ligado à evacuação e a pulsão sádica à destruição do objeto; no segundo período, o erotismo anal está ligado à retenção e a pulsão sádica ao controle possessivo.

É nesta segunda etapa da fase anal que encontramos a ambivalência em relação ao objeto como característica predominante. O prazer, o gozo nesta fase está justamente no controle, na dominação. Nos “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” (Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, 1915, 1924) Freud diz que a fase anal é a primeira fase em que se constitui uma polaridade “atividade” versus “passividade”. Freud associa a atividade com o sadismo e a passividade com o erotismo anal. Segundo a psicanálise, o sadismo visa contraditoriamente destruir o objeto de desejo e ao mesmo tempo mantê-lo sob domínio, e este movimento encontra correspondência no funcionamento bifásico do esfíncter anal (evacuação – retenção) e no controle deste.

Freud fala em algumas ocasiões na pulsão de domínio. Entende por pulsão de domínio uma pulsão não sexual, que só secundariamente se une à sexualidade e cujo objetivo é dominar o objeto pela força.

Podemos levantar mais uma hipótese em relação ao nosso “paciente”. Ao escutar a idéia de iniciar uma dieta, regride a uma fase pré – genital, onde de maneira sádica, quer destruir seu objeto de desejo ao esmo tempo mantê-lo sob eu domínio.

Ao comer a mais ante a idéia de fazer uma dieta, o “paciente” ao tentar dominar e controlar o seu desejo de comer, acaba por perder a sua autonomia, devorando o objeto de desejo, na intenção de dominá-lo, na intenção de assegurar-se deste objeto.
A ambivalência, que possibilita a coexistência do amor e do desejo de destruição do mesmo objeto, aparece aqui claramente. Ao procurar dominar o objeto de desejo e representante do amor – comida, o “paciente” tenta mantê-lo sob controle dominando-o através de seu aniquilamento e destruição.

CONCLUSÃO

Diante de uma situação aparentemente simples, como iniciar uma dieta de restrição de alimentos, nos deparamos com fato de que alguns dias antes, as pessoas costumam passar por um processo de desinibição alimentar, comendo indiscriminadamente e em excesso, alimentos que serão restringidos durante o período de dieta.

Ao deslizarmos através da teoria psicanalítica, fomos observando que o inconsciente tem como característica importante a transgressão.

A partir do grupo experimental da pesquisa comportamental citada, que decidimos tratar como um “paciente”, observamos que o comer a mais diante da idéia de fazer dieta é um mecanismo neurótico de transgressão. Neurótico, no sentido de que, segundo a psicanálise, o “paciente” passa pelo Complexo de Édipo, e por algum motivo, volta atrás, resignificando objetos relacionados às fases oral e anal. Esta re-significação passa por questões ligadas à destruição e ao aniquilamento do objeto de desejo, passando pela culpa melancólica, onde a incorporação e a identificação com o objeto destruído, ficam evidentes. Além disso, observamos também o retorno à questões relacionadas a retenção e expulsão do objeto, que conduzem ao tema da perda da autonomia do sujeito.

Diante de quais mecanismos repetitivos nos encontramos?

No comer a mais diante da idéia de fazer dieta, diante do mecanismo de transgressão. Sabemos, através da psicanálise, que a essência do processo de repressão não está em pôr fim, em destruir a idéia que representa uma pulsão,mas em evitar que ela se torne consciente. Quando isso acontece, podemos dizer que a idéia se encontra num estado “inconsciente”, e que mesmo assim produz efeitos. E só chegamos a um conhecimento do inconsciente como algo consciente, depois que ele sofreu tradução para algo consciente, seja uma idéia,seja um ato. Reprimindo seu representante, o afeto inconsciente é forçado a ligar-se a outra idéia, sendo então considerado pela consciência como manifestação dessa idéia.

Concluindo, acredito termos mais perguntas do que respostas a estas questões levantadas. O tema sobre a desinibição alimentar diante da idéia de fazer dieta abordado neste trabalho, encontra-se em constante aprofundamento teórico e foi colocado à guisa de reflexão, a partir de nossa prática clínica.

Os pontos aqui levantados podem servir como ponto de partida para outros estudos que tragam mais suporte para o trabalho desafiador na área da obesidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
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A autora é Psicóloga, Mestre em Psicologia pela UFRJ, Psicanalista, membro do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro, Especializada na área de Obesidade e Distúrbios Alimentares pela Divisão de Psicologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, São Paulo. É professora na Universidade Estácio de Sá. É Membro fundadora do INBIO e atende em consultório há 28 anos.