A medicina moderna foi influenciada pelo Iluminismo, a partir do qual explicações sobrenaturais e visões tradicionais das doenças foram substituídas por conceitos procedentes da experiência e da observação.
Doenças novas foram reconhecidas e novos rótulos diagnósticos, estabelecidos. Os Transtorno Alimentares estão entre essas novas condições (NUNES et al, 1998).
O Transtorno da Compulsão Alimentar Periódico é caracterizado por episódios do tipo “binge eating”. A tradução literal para o português seria “farra ou orgia alimentar”. Encontramos outros termos para definir o mesmo fenômeno: episódios bulímicos, episódios de compulsão alimentar, ataques de comer. O próprio nome “binge” é utilizado para definir o episódio central do transtorno, alternativa esta proposta pelos filólogos, ou seja, quando não encontramos um termo exato para traduzir uma expressão em outra língua utilizamos a palavra ou expressão na língua de origem (Consenso Latino Americano sobre Obesidade, 1998).
Stunkard (Universidade de Pesnsivânia0), no final da década de 50, observou que alguns pacientes obesos apresentavam um tipo de perturbação do comportamento alimentar semelhante aos ataques bulímicos dos pacientes com bulimia nervosa, mas esta observação foi abandonada. Na década de 80, a hipótese inicial de Stunkard foi confirmada por estudos com pacientes que procuravam tratamento para emagrecer (BORGES & JORGE, 2000).
Spitzer (Universidade de Columbia), propôs uma hipótese de que esses pacientes demonstravam uma forma particular de transtorno do comportamento alimentar diferente da Bulimia Nervosa. Esta nova condição foi chamada, por Spitzer, de Síndrome da Heperalimentação Patológica e depois substituída por Transtorno da Compulsão Alimentar Periódico (TCAP) (Consenso Latino Americano sobre Obesidade, 1998).
Os critérios de diagnósticos padronizados para o TCAP, proposto pelo DSM-IV (Quadro 3), requerem a presença de:
A. Episódios recorrentes de compulsão alimentar. Um episódio de compulsão alimentar é caracterizado por:
(1) Comer num breve período de tempo (ex: num período de 2 horas) uma quantidade de comida considerada definitivamente maior do que a maioria das pessoas comeriam durante um período de tempo similar e em circunstâncias similares;
(2) Um sentimento de falta de controle sobre os episódios, (por exemplo, um sentimento de não conseguir parar o controlar o que ou o quanto se está comendo).
B. Os episódios de compulsão alimentar estão associados a pelo menos três (3) ou mais dos seguintes itens:
(1) Comer mais rápido do que o usual,
(2) Comer até se sentir inconfortavelmente “cheio”,
(3) Comer grandes quantidades de comida, sem se sentir com fome,
(4) Comer sozinho por se sentir constrangido com a quantidade que está comendo,
(5) Sentir-se decepcionado, deprimido, ou sentindo-se culpado após a superingestão.
C. O episódio de compulsão alimentar provoca um marcante desconforto.
D. Os episódios de compulsão alimentar ocorrem em média duas (2) vezes por semana durante 6 meses.
E. O episódio de compulsão alimentar não está associado com o uso regular e inapropriado de comportamento compensatório (ex: do tipo purgativo, jejuns ou exercícios excessivo) e não ocorre exclusivamente durante o curso de anorexia nervosa ou bulimia nervosa.
Em síntese, temos que, o indivíduo com compulsão alimentar não tem controle sobre o ato que é, literalmente, obrigado a realizar e o faz porque precisa desse ato para aplacar a ansiedade, que é intensa. Isso significa que ele não tem escolha, ou, como se diz, popularmente: se correr o bicho pega e se ficar... o bicho come. E como come, se for um indivíduo com compulsão alimentar!
O TCAP acomete indivíduos de todas as raças, com distribuição aproximada entre os sexos - predomínio do sexo feminino na proporção 3/2, geralmente tendo início no final da adolescência. Mulheres com esse diagnóstico apresentam índice de massa corporal (IMC= peso/altura ao quadrado) mais alto do que mulheres sem TCAP, assim
como oscilações de peso mais freqüentes e maior dificuldade em aderir ou manter o peso ao tratarem a obesidade. Costumam se auto-avaliar, principalmente em função de seu peso e forma do corpo, diferentemente dos obesos sem TCAP. Estudos apontam não só escores mais elevados de sintomatologia depressiva como, em média, depressão clínica completa em 50% dos casos (BORGES & JORGE, 2000).
O TCAP pode ocorrer em associação com vários transtornos psiquiátricos e clínicos: anorexia nervosa, bulimia nervosa, transtornos depressivos, obesidade, diabetes etc.
Também pode ocorrer como síndrome isolada. “Traços” de personalidade comuns em pacientes com TCAP são apontados por muitos autores: baixa auto-estima, perfeccionismo, impulsividade e pensamentos dicotômicos (total controle ou total descontrole).
Acreditamos que atualmente a cultura, a mídia as pressões culturais, fazem parte do aumento deste transtorno, mas não podemos esquecer que os transtornos alimentares estão diretamente relacionados a uma gama de fatores multifatoriais: biológicos, psicológicos e familiares.
O tratamento para o TCAP tem como objetivo estabelecer hábitos saudáveis de alimentação e ajudar o paciente a evitar todas as formas de hiperalimentação. As intervenções combinadas com antidepressivos e psicoterapia, parecem mais eficazes (WILSON G.t. & FAIRBURN, 1998).
Segundo o Consenso Latino Americano sobre Obesidade (1998), o tratamento psicoterápico é imprescindível para melhorar a psicopatologia da paciente e para facilitar o cumprimento das orientações nutricionais. A orientação nutricional é uma das primeiras estratégias propostas – podem regularizar e atenuar o desequilíbrio hormonal e psicológico que a alimentação caótica produz sobre os sistemas homeostáticos.
As abordagens psicoterápicas mais utilizadas são: terapia cognitivocomportamental, terapia comportamental, psicoterapia focal, psicoterapia interpessoal, tratamentos de auto-ajuda e intervenções psicoeducacionais. Pensamos ser importante continuarmos trazendo novos conhecimentos, através de pesquisas, para o entendimento de pessoas com TCAP para que possamos ajudar este grupo a sofrer menos.
BIBLIOGRAFIA
1. ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 4 ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.
2. Borges M.B.F. & Jorge M.R. Evolução histórica do conceito de compulsão alimentar. Psiq Prat Med 2000; 33(4): 113-8.
3. NUNES, Maria Angélica A. et al. Transtornos alimentares e obesidade. São Paulo, Artmed, 1998.
4. ORBACH, S. Gordura é uma questão feminista, São Paulo: Editora Record,1986.
5. SPITZER, R.L. e cols. Binge Eanting Disorder: a multisite field trial of the diagnostic criteira. International Journal of Eating Disorders, 11:191- 203,1992.
6. WILSON G.T. & FAIRBURN C.G. A guide to treatments that work. In Nathan P.E., GORMAN J.M. New York: Oxford University Press, 1998.
BIBLIOGRAFIA REFERENTE A DOCUMENTOS ELETRÔNICOS
1. http://www. abeso.org.Br
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